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O que é a greve, afinal, e qual o seu propósito?


A greve como instrumento de luta


Luciana Caetano da Silva1



A greve foi gestada no sistema capitalista de produção, em resposta à exploração da força de trabalho, a partir da implantação do trabalho assalariado. Ela expressa a indignação de uma classe politicamente organizada frente às longas jornadas de trabalho, condições precárias no exercício da atividade laboral e salários achatados, insuficientes à subsistência do proletariado.

Por defender a revolução do proletariado para dissolução do Estado burguês, sempre a serviço dos interesses da classe dominante, Friedrich Engels (18482) definia a greve como um instrumento ineficaz à superação dos problemas enfrentados pelo proletariado, mas reconhecia que os operários deviam protestar contra a redução do salário e não deviam adaptar-se às circunstâncias, ao contrário, as circunstâncias é que tinham que se adaptar a eles, ressaltando que a omissão equivaleria à aceitação das condições impostas pelo sistema e ao reconhecimento do direito de exploração da burguesia. Em outras palavras, a greve é uma reação à exploração da força de trabalho e um ato de preservação da dignidade dos trabalhadores e das trabalhadoras.

Na Inglaterra, só em 1824, os operários obtiveram o direito à formação de associações como um importante instrumento de organização política para fins de enfrentamento aos proprietários dos meios de produção, ávidos por lucros derivados da extração do mais-valor como método imprescindível à acumulação de capital. As associações se expandiram e se reorganizaram ao longo do século 20, com inflexão nos anos de 1990, tanto pela adesão dos países ao receituário neoliberal quanto pela reestruturação produtiva, produzindo formas flexíveis de contratação, inclusive no setor público, a exemplo da terceirização.

O que é a greve, afinal, e qual o seu propósito? A greve se manifesta na ausência do trabalho enquanto meio de produção imprescindível à geração de valor. Seu êxito depende da correlação positiva entre a interrupção das atividades laborais e elevação do grau de desconforto dos usuários do sistema. Portanto, a greve não é um instrumento de conciliação, mas a privação do trabalho como método de tornar evidente sua importância ao bom funcionamento do sistema de produção. Ela perderia o sentido se tudo permanecesse na mais perfeita ordem. O método consiste em desestabilizar a ordem estabelecida com o objetivo de forçar o empregador (público ou privado) a reconhecer o valor do trabalho como meio de restabelecer a ordem.

Por que o governo federal atendeu tão prontamente aos trabalhadores do Banco Central enquanto tenta ganhar tempo para justificar não haver mais tempo ou orçamento para reajustar, nas mesmas condições, os salários dos servidores públicos federais do magistério federal? Para o sistema capitalista de produção, a paralisação do sistema financeiro produziria um caos de proporção infinitamente maior que a interrupção do sistema de educação. Portanto, é a perspectiva do caos que levou o governo federal a atender com celeridade a algumas categorias em detrimento de outras. Tentar minimizar os efeitos da greve significa reduzir sua potência enquanto instrumento de luta e esta tende a ser tão mais potente quanto maior a adesão de diferentes categorias a esse movimento que já se revela promissor.

Não há tempo a perder. É necessário fortalecer esse movimento de luta iniciado pelos técnicos administrativos e adesão da grande maioria das associações docentes em todo o país. Ficar de fora da greve é apostar no enfraquecimento desse movimento de luta. REAJUSTE JÁ!

1 Professora e pesquisadora da FEAC/UFAL.

2 Engels, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010.

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